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Blog de apoio ao Girl, interrupted.
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Segunda-feira, Setembro 11, 2006
Sem
Não se afaste
Que na mesma intensidade que faço cair a noite,
ilumino um quarto
Saber quem eu sou
não me livra de me perder entre os outros
Não sou capaz de parar o que já começou
Tanta rigidez me faz sozinha
Não vá,
que ainda sou capaz de completar teu dia
posted by Fernanda Armstrong at 9:58 PM
Terça-feira, Maio 02, 2006
Céu de cada um
Os cabelos estavam empapados de suor. Era como se tivesse sido atropelada por um trem fora de controle. Ressaca.Sentada no chão, com a cabeça apoiada na privada, ela olhava fixamente para as paredes verde-limão, que cismavam em contrastar com os batentes rosa-fúcsia das portas e janelas. Aonde estava com a cabeça para pintar a casa daquela cor?
Ahhh tinha sido idéia do Seixas, quando ainda namorava aquele traste. Ficara sabendo uns dias atrás, que o maldito iria se casar. E na igreja! Bem ele que tinha horror a casamento, horror a uma vidinha de "proletário feliz".
Levantou com dificuldade, abriu a geladeira e deixou-se refrescar no ar úmido que vinha lá de dentro. Por um segundo, permitiu-se sorrir. O frio fez gelar a espinha quente e Zu acordou do transe. Zu. Era como os outros a chamavam. Ninguém sabia exatamente como se chamava e nem quantos anos tinha. A franja reta e os peitos pequenos a faziam parecer bem mais nova. Não tinha carteira de motorista e achava um horror andar de ônibus. Usava bicicleta, mas só quando não estava bêbada. O que ultimamente andava raro. Uma vez, caindo pelas tabelas, Zu voltava para casa depois de ter ido num show do Tom Zé. Cara foda, o Tom. Vinha pensando na degradação da sociedade e xingando mentalmente os países capitalistas do primeiro mundo. "Eles usam crianças chinesas para costurar tênis Nike à mão, porque as mãos delas são menores e cabem dentro do calçado", disse, certa vez, o PJ, negão engajado, militante do partido. No último fórum social tinham dividido a barraca. Ficou com ciúmes, quando ele decidiu ir dormir na barraca da ativista sueca e loira, um eufemismo ambulante, do Greenpeace. Os pensamentos de Zu iam longe, variando entre os xingamentos mentais ao PJ e aos EUA, quando um caminhão furou o farol e esbarrou em sua bicicleta. Até hoje dá para ver os pontos que levou no cotovelo.
Dentro da geladeira não tinha nada além de uma fatia de melancia. Besteira dizer que Zu não comia carne. É óbvio. Soja era a salvação. Verdade seja dita, não aguentava mais os bifes insossos de carne de soja, muito menos as sopas com gosto de água suja do restaurante vegetariano da Augusta. Quando dormia, seus sonhos eram inundados por sabores que variavam, ora da gordura do bacon, ora do sabor de um queijo parmesão. Acordava salivando, mas se obrigava a vomitar o gosto forte do desejo, antes mesmo de escovar os dentes.
Gostava de cinema. Espaço Unibanco, HSBC, Frei Caneca. Vez ou outra o Marabá, porque fica perto do Satyros, onde bate cartão toda quinta. Claro que não assiste lixo americano, filme-pipoca, bahh... Gostou bastante de Kill Bill, mas só porque era Tarantino. "Você tem que entender as sutilezas do discurso dele".
As privações tendem a ser justificáveis somente pelo nível de prazer que aquela coisa te dá. Talvez por isso, Zu ignore alguns pensamentos.
Ali, sentava na mesa da cozinha verde-limão, ela toma um analgésico com leite de soja. "Minha vida poderia ser gravada por Costa-Gravas", pensa singelamente, apoiando a cabeça no braço e se esquecendo da indústria farmacêutica e seus males. O pensamento a invade sem constrangimento. Relembra toda a sua trajetória, toda a sua luta e instantaneamente se sente bem. Bota um disco do Chico para tocar e veste a saia verde manchada, combinando com as sandálias de tiras de couro. A vaidade escondida, ainda pede uma fivela de conchas que comprou em Trindade, no Reveillón de 90.
Coloca o resto do leite para o gato (que, diga-se de passagem, odeia leite de soja) e dá um pouco de água para as plantas.
Tudo vai bem, se não pensa muito na solidão que guarda a sete chaves. Dor que invade as entranhas no meio da noite e faz sentir gosto de carne na boca e no corpo. Faz falta ter pensamentos condizentes com a verdadeira vontade da alma.
Zu procura não pensar, porque sabe que sempre dói. Pedala a bicicleta com calma e vai comprar mais erva hidropônica, quem sabe no fim do dia, as cores das paredes pareçam mais amenas .
posted by Fernanda Armstrong at 12:12 AM
Quarta-feira, Abril 05, 2006
Hora do Brasil
O tapete marcava os joelhos, mas agora faltava pouco. Por trás da cintura larga do homem, ela avista o relógio. Cinco e quarenta e três. Ele veste calças cinzas, camisa branca, sapatos gastos no bico. Um ordinário qualquer, fedendo a suor depois do expediente. Ela virou para o lado e fechou os olhos por 3 segundos, 1...2...3...vontade de vomitar. Respirou fundo, pegou o maço e bateu a caixa na palma das mãos, mania do pai. O homem, já vestido, empunhou o isqueiro e acendeu lentamente a ponta do cigarro que ela segurava frouxamente entre os dedos. Obrigada, já vou indo. Ela apertou o sutiã com habilidade, jogou o vestido branco por cima do corpo e calçou as sandálias vermelhas.
Nem mais um minuto ao lado deste traste... sufocando o vômito que voltava a temperar a garganta, ela apertou, pelo menos, 15 vezes o botão do elevador, antes de decidir usar a escada. Enquanto descia os degraus, observava o vão da escada caracol. Desde criança tinha medo e fascinção por este tipo de vão. A tia Lurdes morava naquele prédio da Casimiro da Cunha, que tinha uma escada igualzinha. Num natal em que foram visitá-la,devia ter uns quatro ou cinco anos, ficara pendurada pela alça do vestido. O pai consegiu puxá-la para cima, mas isto lhe rendeu uma surra de cinta e três dias sem se sentar. Depois do incidente, e apesar do medo, sempre que iam visitar a tia solteirona, ela dava um jeito de dar uma espiadinha pelo buraco. Lembrava na pele, a sensação de estar pendurada, como se flutuasse. O ar empurrando para cima e a gravidade para baixo.
Começava a entardecer quando saiu do prédio na Av. Atlântica. O porteiro baixou o olhar quando a moça de vestido branco passou. Na certa julgava seu cabelo embaraçado e sua roupa amarrotada. Todo mundo sabia. O passo parecia ensaiado para que a cadência não demonstrasse o rastro de solidão que deixava para trás. Pelo menos, era o que ela achava. Certamente, as pessoas estavam muito mais preocupadas com o próprio negrume que lhes consumia o peito, do que com o do outro.
"Sentiu seus saltos no asfalto...o vento na perna, embaixo da saia...a blusa meio aberta branca...sorriu...mas não sabe pra onde ir..."
Entrou no táxi e bateu a porta. Não, moço, não tenho geladeira na minha casa. Hora do Brasil. Sempre se sentia pontualmente miserável neste horário. Bastava a voz começar a declamar no conhecido tom entediante e as luzes da avenida se acenderem todas de uma vez só, para que ela se lembrasse do porquê e se esquecesse automaticamente do hoje. O olhar perdido na janela já era parte da rotina. Ela girou a aliança no dedo e fechou os olhos. Mais um dia matando um pedaço dele dentro dela, custasse o que custasse
posted by Fernanda Armstrong at 12:54 AM
Terça-feira, Dezembro 20, 2005
Astronauta de Mármore
Mãe e Pai,
Hoje eu entrei por aquela porta de vidro que tantas vezes eu olhava da janela do carro. É.... aquele prédio imenso, na beira da Marginal. De dentro do carro, eu apontava para lá e dizia pra você, mãe, " É lá que eu vou trabalhar, mamãe!". E você sempre acreditou. Aliviada e ainda assim, cheia de gana. É como me sinto...Como se eu tivesse chegado no primeiro estágio do que sempre sonhei pra minha vida.
Eu sempre senti que precisava resgatar vocês do buraco que, indiretamente, eu meti. Foi assim que eu me senti a vida toda. Tentando ser o bastante, tentando ser boa o suficiente para apagar escolhas erradas que nem ao menos foram minhas. Como se eu pudesse fazer valer cada dia triste da juventude perdida de vcs dois. Que por mérito meu e seu, eu sou quem eu sou.
E por isso tão exigente comigo, com os outros, tão feliz com meus acertos, tão decepcionada com meus erros, tão pouco humilde às vezes, tão triste pela mesma razão. Coisa da minha cabeça, mas que me faz ser a "filha responsável" que vc acha que eu sou, pai, e para ser recompensa por tudo que vc fez por mim, mãe. Porque eu quero ser o seu projeto que deu certo, porque eu quero que tenha orgulho de mim. Porque eu gostaria de gritar para as pessoas que destrataram vocês, que criticaram, que acharam que eu era um erro...." Olha pra mim, eu sou filha deles!". É um misto de orgulho e de dever cumprido.
Lembro do dia em que vi vcs felizes pela última vez, lembro do dia em que vc foi embora, pai, e do dia em que vc foi pra longe, mãe. E sei o quanto eu cresci nesses dias, o quanto fiquei velha em questão de segundos. E hoje, quando pisei naquele prédio todo espelhado e gigantesco, consegui concretizar mais um pedaço do projeto que fiz para mim e para vocês. Que os esforços e todos os dias em que me senti sozinha, valeram para me empurrar adiante, mesmo quando a vontade era de me enfiar embaixo da terra e não sair mais.
Por todos os dias em que eu tive raiva de vcs, por todos os dias em que eu quis ter nascido em outro lugar, por todos os dias em que tivemos que nos mudar e adaptar a nossa realidade para o que tínhamos. Por todos os dias em que eu vi minha mãe chorando no quarto sozinha, por todas as vezes em que eu fiquei esperando vocês voltarem tarde da noite, por todas as vezes que meu pai me ligou chorando de algum lugar perdido por aí, por todas as vezes que eu tive que ser mais velha do que sou. Por todas as vezes que eu fui tola e vocês tolerantes, por todas as vezes que vcs ficaram acordados porque eu tinha medo de dormir, por todas as vezes que eu tive que bater o pé e pedir desculpas depois. E crescemos juntos, amadurecendo e aprendendo. Ninguém precisou me dizer "Vai...faz o que vc quiser da sua vida agora que é adulta!". Eu sempre fiz, e sempre me pareceu implícito, porque confiança e amparo eu tinha. Queria dividir o quanto sou feliz hoje.
- O que vou fazer sem você aqui? - eu perguntei pra você quando você foi embora.
- Vamos tecer os nossos sonhos em duas mãos. Você faz a sua parte aqui e eu a minha parte lá.
Hoje temos uma colcha. Imensa, toda colorida, irregular, mas completa. Linda. Podemos começar a próxima, maior ainda.
posted by Fernanda Armstrong at 10:57 PM
Sexta-feira, Agosto 12, 2005
ENSAIO 1 - CENA ELÁSTICO
Escrevo enquanto vc ainda está aqui. Deitado do meu lado, o mesmo lado esquerdo que dorme há mais de 5 anos. Escrevo assim, com pressa no escuro, porque sei que pela manhã, não estará mais. Eu sempre senti que um dia pela manhã, vc fosse embora sem me acordar. Acho que chegou a hora.
A lista de reclamações já é muito maior do que a nossa lista de compras do supermercado. Eu sei. Eu abro a boca para pedir desculpas e as palavras se perdem no ar, tomam direções erradas, flechas....viram flechas. Por isso escrevo. Para não ter que olhar nos teus olhos e me descubrir fraca, ferina, falsa. Falsa, porque não sou assim. Sou aquela que você ama, não essa vaca que ando sendo, essazinha que bebe demais, toma comprimidos demais, fala demais.Típico. Cartas de perdão. Isso é típico.
E quer saber, eu nunca me acostumei com você pela casa. Você sempre foi um estranho dormindo na mesma cama. (suspiro) E isso é o que eu mais amo em você, que de familiar já me basta eu. E eu nem me aguento...Você...você eu não preciso aguentar, você é surpresa, você é novidade. Sempre.
Ontem, quando discutiamos na cozinha, eu reparei numa coisa: seu cabelo. Ele está horrível! Curto, desajeitado, estranho. E enquanto você me dizia todas aquelas frases que começavam com " vc é que..." e terminavam sempre comigo sendo a culpada, eu só conseguia pensar no seu cabelo curto feio.
Por isso, amor, dessa carta. Que eu percebi naquele instante, que queria ver teu cabelo crescer. Estar junto quando ele atingisse aquele comprimento que eu gosto. E depois cortar ele de novo, curto, só para ver crescer tudo de novo. Eu ainda quero estar perto.
Eu sempre senti que um dia pela manhã, vc fosse embora sem me acordar. Sei também que o fim é curto, emenda com o começo.
Vai...não te preocupa o tempo traz.
Eu, M.
posted by Fernanda Armstrong at 9:50 PM
Terça-feira, Abril 26, 2005
Da minha boca
De tudo que te cerca
Do mundo que me resta
Como é possível fazer o fim de algo, o começo?
Como é possível viver em paz, mesmo num tormento?
E entre a sua ironia
Minha vida acontecia
Que se a sua vida faz
algo valer na minha
O tudo que eu tinha
Não poderia nunca ser o bastante
Na sua estadia inconstante
Mas o que importa se até o céu da minha boca
fica estrelado quando vc me toca
E toca sempre aqui,
onde não há para onde ir
posted by Fernanda Armstrong at 6:54 PM
Sábado, Dezembro 04, 2004
Por volta do dia 10 de janeiro de 2004
Lost in Translation
Ela prendeu os cabelos propositadamente desleixados, deixando soltas, mechas displicentes que faziam cócegas na nuca. Entrou, pé ante pé, na banheira com água quente e fechou os olhos.
Ele entrou sorrateiramente como sempre fazia. Disse algo sobre a água estar muito quente e sentou-se ao seu lado. Permaneceram assim, quietos, mexendo com a ponta dos dedos na água e sorrindo furtivamente quando seus olhos se encontravam. Ela sentia cócegas com o jeito que ele lhe ensaboava as costas e ele achava graça na maneira que ela lhe lavava os cabelos, delicada e desajeitada.
Naquele dia não disseram muita coisa. Instintivamente sabiam que não era preciso, bastava estar lá.
Ela que estava um tanto cansada de si mesma e de onde estava, sentia-se como naquele filme da Sofia Coppola, precisando de alguém que murmurasse palavras de conforto ao pé do ouvido.
Ele, que se sentia alheio a tudo, não conseguia ignorar a voz no fundo da cabeça que repetia incessantemente "você não vai ser o mesmo depois dela", fazendo ecoar no coração com batidas surdas.
Ela encostou a cabeça no ombro dele e ele entrelaçou os dedos nas mãos coloridas dela. O espelho embaçou por completo, mas eles não mais precisavam ver reflexos, a realidade se fazia bonita agora. Não estavam mais sós. Permaneceram assim como se no meio dos seus dois mundos confusos, surgisse um outro, surreal e imaginário, onde não houvesse nada além da boca dela e do cheiro dele. Completamente ilhados, calmamente vivos, eternamente atados.
posted by Fernanda Armstrong at 11:04 AM
Quinta-feira, Novembro 04, 2004
E quando vêm é sempre enfim...
Assim, como um tiro que estoura todo o peito por dentro, mas que por fora parece ser só um furinho na pele. E a pessoa fica com aquela última expressão derradeira. Os olhos procurando ele na rua, o sorriso meio sem graça por estar morrendo assim, no meio da multidão sem nenhuma formalidade. Dobra os joelhos, senta no chão...não sente dor. Absolutamente nada. E ela que desde menina sempre achou que a morte era dolorida, não conseguia conceber aquele estado inerte que se encontrava. Morrer era calmaria em peito agitado. Eis então, que sem aviso prévio, preso em algum lugar entre o coração e a garganta, está o grito que não saiu na hora do disparo. E ele vem subindo, límpido, sonoro, arredio, e quando estoura, vem clamando pelo nome dele. E aquilo assusta os transeuntes que estavam em volta da mancha de sangue que ficava cada vez maior ao seu redor. Nem um pio na multidão. E ela chora, um choro alto, quase gritado. E num novo estouro, cessa. Os olhos fecham macios e ela aperta a bolsa contra o corpo com uma força descomunal.
Estava voltando depois de buscar as fotos que ele tirara no dia passado naquela casa que revelava retratos. Era longe, a dois ônibus de distância, mas era preciso. Estavam juntos há 7 anos, mas só agora iriam se casar. O cartório pedira "2 fotos 3X4 recentes", e ele não tirava fotos desde o alistamento militar. Por insistência dela, ele vestiu a camisa de linho antigo e a gravata vinho com bolinhas que se confundiam com os furinhos das traças do fundo do armário. E com a ajuda de um gel fedorento, abaixou os cabelos rebeldes e espinhentos. Ela achou que nunca o vira tão lindo. Ele achou que nunca havia estado tão pavoroso. Mas se a agradava, nada mais certo. A vida dela já era tão descolorida, tão carente de dias felizes, que ele não se importava em parecer um palhaço se isso a fazia mostrar os dentes. E o sorriso dela era tudo o que tinha de mais brilhante no mundo.
Sete anos e ele ainda conseguia se aquecer só de olhar para ela. Casar era mera formalidade, eles sabiam, mas era preciso. Concordaram assim, sem discussão maior, um dia na mesa do café:
- A gente poderia casar , né amor? Me passa a manteiga?- ele disse sem pretensão, mas observando-a atentamente com os cantos dos olhos negros.
- Sim, querido. - e aquele sorriso mais lindo na face amassada de sono o fez ter mais certeza ainda da proposta.
E agora, já longe, ela pensou nas orelhas dele. Pequenas e macias. E se deu conta de que a cegueira estava vindo, assim como a surdez que já havia se instalado nos seus ouvidos há muito tempo. Só via a ele. E as pessoas a sua volta já eram nuvenzinhas com formatos humanos. "Triste e tranquilo...até que não é ruim morrer assim, vendo ele.". E começou a delirar. Uma senhora muito velha dizia para alguém que era claramente um turista yanke : " coitada...já está conversando com Deus.". O turista pareceu concordar e murmurou um "yes...angels are comming...". Nessas horas as pessoas costumam dizer a mesma língua. E ela dialogava com o passado. Sentado na cadeira da mesa da cozinha, mexendo em contas e papéis, ela abraçada ao seu pescoço, pedindo para irem dormir.
-Só mais um pouco, querida... - ele dizia segurando suas mãos geladas.
- Ah amor, estou cansada. Quero ir logo...- dizia ela olhando para o nada, sentada no chão frio e assustando o público que se reunira para assistir seu último e derradeiro episódio. E ele respondia, no delírio dela " vai indo...eu vou jajá.". E ela então, segurou um rosto imaginário nas mãos e disse com uma voz que soava macia e quente, " vou estar te esperando...mas não demora que a minha vida se vai a cada minuto longe de vc...". Ele nunca soube porque ela havia dito algo tão dramático...afinal, ia estar no quarto ao lado. Mas hoje, hoje talvez entendesse que ela ensaiava inconscientemente a cena final.
Há quem diga que foi possível vê-la partir, levada pelas mãos por um delírio que já não fazia mais parte só da imaginação dela. Os olhos fechando e a voz sumindo. Quem esteve lá jamais pode esquecer aquela cena, e é capaz que contem até hoje para as visitas que vão em casa, sobre " a mulher que levou um tiro no peito e morreu de coração partido....".
Do outro lado da cidade, a dois ônibus de diferença, ele chorava sentado no chão da cozinha de azulejos azuis. Atônito, encabulado de estar vivo, afinal, metade da sua vida estava se esvaindo naquele momento, junto a dela. Estava cortando cebolas, e chorando como manda a cartilha, mas a faca escapou e cortou-lhe o dedo indicador. Num reflexo mais do rápido, ele colocou o dedo na boca afim de sugar o sangue bordô que jorrava do talho que ia da ponta até a primeira dobra do dedo, mas qual não foi sua surpresa ao notar que o sangue que sorvia não era o seu, mas o dela. Então ele percebeu.E a vida foi-lhe indo embora a olhos nus, cada minuto longe dela era sempre um a menos.
posted by Fernanda Armstrong at 6:42 PM
Quinta-feira, Outubro 14, 2004
- E até quando o senhor sugere que fiquemos nesse ir e vir do caralho?
- A vida toda...
E decidira assim, entre um sacolejo e outro do ônibus, que não bastavam serem amores para toda vida. Porque ainda estes, traem, mentem e escondem. E depois sempre sobram os perdões e as lágrimas que dizem em uníssono que "aquilo tinha sido só culpa do instinto, mas que nunca amara ninguém na vida como ela".
E não, não que acreditasse que um dia isso aconteceria com eles, mas achou conveniente que cada coisa dali para frente fosse explicada sempre.
O ar ficava rarefeito a cada vez que pensava nos olhos dele, que de fato eram de tamanhos diferentes, mas que eram os mais lindos que ela já tinha visto até então. Mais tarde diria o mesmo para os olhinhos do seu filho mais velho, que apesar de ter o gênio da mãe, teria a pele cor de canela e os olhos desiguais e intensos do pai.
E decidiu não jantar na hora de sempre, porque precisava escrever o que diria mais a noite quando ele ligasse para conversar sobre a amenidades e finalizasse com o dorme bem, minha linda que ela esperava o dia todo para ouvir. E ela queria lhe dizer coisas que não conseguiriam ser ditas olhando para ele, porque quando olhava para o seu rosto, se desconcertava, tinha vontade de rir. Aquele riso solto e descomedido, riso de quem já não se sente mais neste mundo, que já está naquele caminho sem volta e nem respiro tão característicos destes amantes transcedentais. Aliás,rir enquanto brigam ou conversam coisas sérias viraria marca registrada ao longo dos anos juntos. E até no dia em que ela já não conseguiria mais sorrir, pq lhe faltava forças até para pensar, ele fez aquela piadinha sobre o rabo dos porcos, e os olhos dela deram aquela gargalhada que o fazia amar cada dente dela de maneira singular.
Pois bem, precisava dizer que ele estava certo quando lhe disse que é besteira aquele negócio de sufocar o outro, que sufocados na verdade já estávam desde as primeiras letras. E que não tinha medo de enjoar, na realidade tinha medo de tudo. Mas que esse tudo ainda assim era tão pequeno perto do amor que sentia, que era realmente tolice ficar ponderando os baques surdos e duros que seu coração dava a cada pensamento com ele.
E não era só. Queria também dizer que se o fardo que concebia era aquele que ele havia dito nas escadas e que ela repudiara, que agora então estava-o aceitando, não porque era uma alma caridosa e samaritana, mas porque ele não diria tal coisa se não acreditasse piamente. E se os dois teriam de ser lanternas na escuridão alheia, que assim o fossem. Não discutiria fé com quem havia cruzado seu caminho para restaurá-la. Disso ele entendia bem.
Mas que também nunca se esquecesse de que ela não conseguia ser imune. Não queria mais ficar levando tapas e pontapés à toa. Não mesmo, que não era mulher de sangue morno. E se a sua boa vontade e a sua maturidade forçada a fazia ser mais compreensiva com os outros, que ele também pudesse ser com ela e entendesse que na maioria das vezes ela só queria abrigo. Queria alguém que fosse sensato o bastante para também tomar as dores dela, porque o amor é assim mesmo, justo primeiro para com quem se ama, e depois com o resto do mundo. Ela também tinha motivos para estar ferida, ela também queria alguém que lhe desse razão, ainda que precisasse entender os motivos dos mais fracos e aprender com eles mais tarde.
Ele permeava os pensamentos dela como se estivesse cosendo as partes desjuntas com uma linha marcante. E a cada fim de dia, ela desejava que seu ônibus perdesse o rumo do tempo e fosse parar num caminho mais adiante, onde a vida já se dividia nas prateleiras da sala e onde pudessem tomar banho juntos até seus dedos enrugarem sem pressa.
posted by Fernanda Armstrong at 10:18 AM
Terça-feira, Junho 01, 2004
Para Linch filmar...
É como se eu perdesse meu livre-arbítrio e aceitasse o que um roteiro me impõe. Sou personagem principal numa trama só minha. Meus passos não são mais do que um levantar de pés altamente ensaiado, e o fundo, por mais belo que seja, não passa de um cromaqui muito bem feito. Uma tela verde e o meu corpo. Um papel em branco e a minha alma. Alma esta que ofereço de bom grado, por não saber mais o que fazer com ela.
Pega o livro na cabeceira da cama, tira os óculos, coloca-os na mesinha e se embrenha na floresta de qualquer autor. No dia seguinte, os óculos sumiram. Ninguém entrou no quarto.
Mastiga a pipoca e cospe o milho num guardanapo branco. Pensa que é nojento, mas é assim que o diretor resolveu caracterizar a esquizofrenia da sua personagem. E aceita. O filme que acompanhava a pipoca não termina. Nos minutos finais, aqueles segundos que atencedem "A" grande revelação, são interrompidos por gritos na sala de estar do sobrado em que mora. O filme pára, a mocinha sente um cheiro estranho. Cheiro de realidade, ela diria. Aroma de carne sendo assada no andar de baixo e de sentimentos cozidos com pimenta.
O computador não responde aos seus chamados. As pessoas parecem caracterizadas demais para serem reais. E eis que a internet resolve lhe dizer a sua história de amor ípsis-literis. Abre uma página, e lá está! Ela, ele, todos. Todos cercados por um roteiro extra-meloso, tão fictício, que se parece realmente com a realidade. Surreal, banal, doce, desejo, fim, anjos, repulsa. Palavras que fora do contexto se tornam extremamente insignificantes, mas que no seu mundo, soam como certas.
A fumaça abaixa, sobe o som. Ela lembra de um rosto que não quer lembrar. Ela escreve para alguém que não vai entendê-la. Ela sonha com planos que a vão frustrar. Ela rouba frases de outros. Ela canta bem, mas nunca vai cantar para vc. Ela esconde, ela dissimula, ela sonha, ela sofre. Ela não sou eu. Tampouco é vc. Ela é um personagem triste, daqueles que entrariam numa banheira quente com uma gilete. Ela não se mataria,não, ela sabe que um anjo sempre vai salvá-la no final. E eu já disse o quanto ela adora finais?
posted by Fernanda Armstrong at 9:36 PM
Terça-feira, Maio 04, 2004
Like a bad medicine
(Sam lê a sorte no biscoito chinês)
Chuva torrencial. Atravessa a rua num fôlego só e entra na Lavanderia Ling. "Hi Mr. Ling...what a night ,huh?" diz ao velhinho com cara macilenta e ares de tédio. Deixa as roupas sujas de uma semana no balcão e ao sair, esbarra num ser de capuz que entra todo esbaforido e molhado. Molhada, na realidade. Marla murmura algo em um mandarim muito bonito e sonoro para o Mr. Ling e vira para Sam, ainda na porta, inerte. Cabelos curtos e avermelhados, olhos levemente puxados e um coturno desbotado. Diz algo sobre o tempo...algo sobre chuva...algo sobre felicidade em biscoito chinês...Sam levemente atordoado concorda com o que ela diz e sorri. Um calafrio percorre sua espinha e ele se imagina deitado na cama com Marla. Sua pele clara contrastando com um lençol escuro. Um insigh...igual a que teve quando conheceu Clarice.
Pq raios as mulheres lhe aparecem quando está chovendo?
Ele sabia tdo que ia acontecer, sabia que iriam tomar um café, e ela iria falar sobre bandas de rock que ele também gostava. Sabia que iriam passar semanas trocando e-mails, até que numa tarde fria ele iria até a casa dela com o pretexto de ver um livro sobre Dali e que iriam passar as proximas 3 noites dentro do quarto. Sabia que aqueles olhos asiaticos e aquele surrealismo crescente iriam lhe atordoar e deixa-lo apaixonado. Sabia também e porém, que ela iria deixá-lo para trás e seguir viagem. Ela não era mulher de ficar presa, ele sabia. Sabia que ia chorar durante um dia inteiro e tomar um porre fenomenal a noite lembrando da maneira que ela dava risada e de como sua pele tinha cheiro de grapefruit. Ele sabia de tudo.
Mas naquele dia chuvoso pouco importava de fato. Ela era diferente de Clarice. O oposto. E era tudo que ele precisava no momento.
posted by Fernanda Armstrong at 9:15 PM
Quinta-feira, Março 18, 2004
Revirando nas minhas cartas antigas, achei isto:
"Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis
ao mesmo tempo.
Realizar em si toda a humanidade
de todos os momentos
num só momento difuso, profuso,
completo e lingínqüo."
Estou de acordo com Pessoa....é incrível como ele sempre sabe que palavras usar...rsos...
posted by Fernanda Armstrong at 5:59 PM
Quinta-feira, Fevereiro 05, 2004
"Diamonds On The Inside"- Ben Harper
I knew a girl
Her name was truth
She was a horrible liar.
She couldnt spend one day alone
But she couldnt be satisfied.
When you have everything,
You have everything to lose.
She made herself
A bed of nails
And shes plannin' on puttin' it to use.
Cos she had diamonds on the inside
She had diamonds on the inside
She had diamonds on the inside
Diamonds
A candle throws its light into the darkness
In a nasty world,so shines the good deed
Make sure the fortune, that you seek
Is the fortune you need.
So tell me why,the first to ask,is the last to give,everytime
What you say and do not mean
Follow too close behind
Like a soldier standing long under fire
Any change comes as a relief.
Let the giver's name remain unspoken
For she is just a generous thief.
posted by Fernanda Armstrong at 5:52 AM
Quarta-feira, Novembro 26, 2003
Pq sim, meu amor...
Porque quando eu falo com vc, dói meu estômago...
porque quando eu penso em vc com outra, meu nariz arde...
porque por vc eu perco o sono...perco o tino...
porque eu não consigo respirar, não consigo pensar...
porque eu não consigo mais decifrar o que vc pensa a meu respeito...
porque de repente vc se tornou mais forte que eu e assumiu o jogo...
porque meus olhos querem pular de órbita se vc demora a me responder...
porque eu tenho medo que vc não seja a resposta para minha frustração...
porque quando eu te vejo vc personifica a minha felicidade...
porque eu seria muito mais feliz com vc do que só comigo mesma.
E agora me diz...por que tem que ser assim?
posted by Fernanda Armstrong at 11:20 PM
Quinta-feira, Novembro 13, 2003
Post-it always stick twice...
( a primeira separação de Clarice e Sam)
Não conseguira pregar os olhos a noite toda. E quando o relógio digital apitou as 3:00 A.M, ela desvencilhou-se dos braços de Yuri e foi até a janela do apartamento. O ar abafado de fim de novembro a deixava nostálgica. Acendeu um cigarro e em meio a baforadas lentas, se permitiu chorar. Clarice perdeu o ar de mulher inabalável e mais parecia aquela menina cheia de ilusões de antes. É...Antes já fazia tanto tempo...antes não tinha nada comparado ao que tem hoje, por que então, se sente tão vazia?
Olha para Yuri...com certeza um exemplar do sexo oposto de dar orgulho a qualquer mulher. Bonito e boa companhia. Trabalhava com ela e era seu segundo affair depois de Sam.
No fundo, sabe que ele é só mais um...mais um tentando ocupar o lugar de alguém que se foi pra sempre. E involuntariamente, as cenas surgem em sua cabeça, como se estivesse vendo a um filme triste:
Era uma noite de quinta-feira e ela voltou para casa mais tarde. Chovia de modo agradável e ela havia se perdido um pouco no meio dos relatórios no escritório. Estava satisfeita consigo mesma, orgulhosa por sua ambição estar atingindo patamares consideráveis.
Chegou em casa e saindo do elevador, sentiu estar pisando em algo macio, achou estranho e resolveu acender a luz. Deparou-se com um caminho de rosas coloridas que iam da porta do elevador até a porta de seu apartamento. Continuou caminhando, abriu a porta e se deparou com flores, velas e aromas novos. Uma música de fundo e uma mesa posta. Olhou para os pratos: macarrão a putanesca e escalopes de filé. Vinho tinto e chocolate.
E ao virar a cabeça, o culpado pela cena novelesca dormindo copiosamente na poltrona azul da sala. Na certa Samuel estava lá há muito tempo esperando por Clarice, e havia caido no sono esperando sua amada.
Um calor incomensurável percorreu as veias de Clarice e ela desandou a chorar. Foi até ele, sentou em seu colo e o abraçou.
Ele acordou.
- Já chegou amor, estava te esperando...
- Não diz nada...me abraça...
Fizeram amor a noite toda e aproveitaram cada take daquela cena romântica clichê.
No dia seguinte, Samuel acordou sozinho. E ao procurar por Clarice pelo apartamento, deparou-se com um POST-IT colado no vidro do banheiro:
Quando Clarice voltou naquela noite para casa, encontrou o vidro do banheiro estilhaçado e milhões de recados em sua secretária eletrônica. E assim se seguiu durante semanas, ele procurando e ela fugindo, e enfim um dia, cessou.
"Na certa desistiu de mim.", concluiu Clarice e respirou pesado, fingindo estar aliviada. Mera ilusão. Não seria fácil deixar ele para trás.
posted by Fernanda Armstrong at 8:31 PM
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